2006-06-13

Amor de Longos Períodos.

Se fosse tentado imaginar, era possível sentir o cheiro que a borracha de seu sapato derretendo no asfalto exalaria, tal fúria era sustentada em seu desejo de partir daquele apartamento. Eu percebi, sem desespero, que daquela vez era pra valer. Mesmo um imbecil não teria dúvida alguma.

Em um balouçar sereno, a perna direita, cruzada sobre a esquerda, representava com efeito a singularidade da ocasião em relação aos desfechos anteriores de nosso relacionamento. Eu sabia que hoje ela não voltaria em quarenta minutos para pedir o telefone do gás, deixar avisos para a empregada ou buscar uma foto, pois além de não haver mais nenhuma desculpa sobrando que valesse usar para colocar os pés aqui em casa outra vez [A não ser que ela apelasse para me lembrar de colocar a comida do peixe, que eu sempre esquecia], o balançar da perna era calmo, sem hesitar.

A questão é, que se por ventura ela tivesse nas mãos, quando punhávamos fim ao relacionamento, um objeto qualquer - uma faca, um bastão de beisebol, um secador de cabelos - que por eventualidade acabaria colidindo com as minhas costas [Nas costas sim, se eu estivesse sóbrio o suficiente para virar-me e abaixar minha cabeça], eu poderia ter a certeza de que aquilo tudo não passaria de um segundo: a explosão se dava pelo único motivo de que ela se importava, e assim, depois de explodir, seus quadris entrariam no nosso insofrido diálogo, que se tornaria em pouco uma deliciosa discussão de três participantes. E que colóquios deliciosos eram esses depois das brigas. Na verdade, nada, nem mesmo o fato de suas coisas estarem ordenadas detalhadamente em duas caixas, essas organizadas como partes de um totem, influenciou em minha conclusão. Mas a perna...

Fatídico que o fim se desse na única ocasião em que eu não o havia fundamentado. Eu decidi algumas semanas antes que a proveria de tudo que ela poderia pensar em querer. Desde fidelidade a massagens, atenção, garantias, orgasmos, panquecas, declarações, tudo do bom e do melhor, trabalhando unicamente a favor de seu tempestuoso bel-prazer. E é claro que eu asseverava a manutenção do que aprendi ser de mais influência para a saúde do nosso amor: já há meses eu vinha levantando a tampa da bacia a cada e t-o-d-a santa mijada. Tinha que ser outro cara... Ela sempre acabava por conhecer esses homens de vida ganha e de conversa macia. Tinha que ser. Seria? :~~

Esperava apenas que eu acordasse para me avisar brevemente, e partir. De outras vezes, eu não teria me desesperado. Na verdade, eu ficaria até satisfeito por poder jogar minha cueca na bandeja de copos e ler nu ouvindo música alta, além claro, de peidar, arrotar e todas essas delícias proibidas no universo conjugal. De outras vezes eu teria adorado aidéia. Dessa, não: dessa vez eu daria tudo que já consegui por esforço próprio para tocar aqueles lábios novamente, passar meus dedos através de seus cabelos e descer, com a ponta dos dedos massageando a nuca, da forma que sempre quis, e que por alguma resistência proveniente dos meus conhecimentos básicos sobre sentimentos, eu nunca havia feito. Havia amado uma vez por vaidade e a ferida feita em meu orgulho, pela incisão do vínculo que havia com aquela mulher que eu julgava perfeita limitou-me a, daquele momento em diante, não mais que confabular sobre os carinhos que eu poderia doà-la. Só nesse instante, vendo ela sentada ali, percebi como deveria ter muito mais apreço por ter esta mulher ao meu lado, que por aquela, que outrora partiu.

Também foi nesse momento que eu vi que toda a minha indiferença não era mais que uma maquiagem que escondia todo meu apreço e insegurança. Foi quando ela realmente ameaçou-me abandonar-me à minha sorte. Eu nunca me permitia dizer tudo quanto sentia: primeiro por medo de me ouvir dizer e sentir que havia perdido o controle novamente estando à mercê da boa vontade da pessoa que eu amava, segundo por hábito, e terceiro por já ser tão difícil encontrar meus sentimentos, que até para pensá-los comigo mesmo era preciso uma busca árdua, uma vez que estavam completamente enterrados em algum canto de mim que não eu. E era por esse motivo que todo aquele amor indelével que eu sentia estava destinado a ser esquecido junto com/da mesma forma que as últimas calcinhas penduradas no cano do chuveiro do banheiro de empregada. Ficariam lá pra sempre.

Mas descobri, pouco antes de que ela partisse, que tudo se dera por um scrap que Claudinha Entrapulso deixou no meu orkut. UM SCRAP! E eu que nem tinha nada a ver com aquilo, pô. Cheguei até a achar que o desprezo dela via-se em relação ao scrap, e não a nossa vida, que ela estava findando, tão sucinta, mas... não, não podia ser. Claudinha gostava de mim desde a época do colégio, e de vez em quando escrevia alguma besteira para mim. Hm.. Tá,tá. Confesso. Claudinha não era a fim de mim: era a fim de qualquer coisa que tivesse mais de 30 dentes.

Porra, bem que isso poderia ter sido pulado. Acho que vou apagar esse detalhe quando acabar de escrever tudo.

Enfim, Claudinha Entrapulso era uma mulher a se admirar. Dentre todas que conheço pessoalmente, é a única que ganharia sem muita dificuldade, um prêmio Nobel de sexo pelo conjunto da obra, se este existisse. Na verdade, eu tenho minhas certezas de que, se esse prêmio não existe, é para não dar aos brasileiros o gostinho de ter um Nobel, pois mesmo com o passar dos anos, não haveria de existir uma só mulher de outra nacionalidade que poderia ter a chance se colocada diante de um dos exemplares brasileiros, mesmo o mais medíocres. Importante é saber que ela havia sido minha primeira, segunda, terceira e quarta vez, em um período de sete anos: dois no científico e cinco na universidade. Mas temos de ser justos com essa deusa da leviandade, pois ela só ia pra cama com alguém quando a vontade era dela, nunca caía na conversa de um qualquer. E o sinal que ela dava de que estava esperando e de que ela queria era só um, aquele que acabara por arruinar meu noivado: um scrap qualquer. E ao lembrar disso, fiz a única coisa que eu poderia fazer, uma vez que a decisão de minha cônjuge era inflexivel. Antes que a sinapse de insight houvesse sido completa, eu pulei de barriga no sofá pra pegar o telefone e ligar para o outro número que sabia decorado além do meu, arrastando sem querer com o pé uma estátua africana de uma boneca queimadinha com argolas no pescoço.

Em menos de meia hora a campanhia toca, e ela aparece em toda sua insaciabilidade indomável. Foi só o tempo ligar o rádio e sentá-la na pia do banheiro social ao ouvir as ordens mais absurdas, para que eu olhasse no espelho, e nele encontrasse minha recém ex-noiva de pé, olhando para mim, segurando um pote verde:

- Não esquece a comida do peixe.