2007-01-19

Quincampoix e o Divã

Já pensou? A mais apaixonada das opiniões n'est pas plus qu'un seul caprice! E de fato, quanto mais apaixonada, quanto mais investida de emoção, mais falseada e contingencial se torna esta idéia, doutor.
- Hm.
- Hm. Ao viver uma sensação, uma emoção, que surge travestida de intuição, é que se busca argumentos para sedimentá-la. Algo que pode até ser confundido com uma inclinação inocente para um certo lado das coisas é uma manifestação que não tem um motivo senão manter a estrutura do tal sujeito.


Haveria o analista pensado naquilo tudo em algum ensejo mínimo de sua vida prévia? Ou, como a corroborar suas suspeitas, era apenas um daqueles egocêntricos e barbudos e muquiranas e mercenários que tratam a Psicanálise com uma materialidade absurda de quem ainda não havia alcançado o estágio piagetiano das operações formais? E o pior era que, por tomar a Psicanálise como verdade absoluta, não poderia entender a proposta da verdade contingencial, por ir de encontro à essa posição, posição que simplesmente o dava licença para ser Deus e conhecer e controlar e administrar e superintender a mente humana. Durante algum tempo o único som que pôde-se ouvir era o zunir abafado do condicionador de ar.

- O seu trabalho por exemplo. Tem quem diga que o senhor é limpo e ajuda as pessoas, sabe como elas funcionam, e isso vai estar certo. Mas pode ser que alguém apareça e diga que o psicanalista é um ladrão. E o pior deles. Alguém que se coloca no posto de salvador, de senhor da verdade. É gostoso, não é doutor? Mas se por um acaso, acaso que que dorme na improbabilidade mais infinita, o senhor fosse realmente capaz de mudar alguém, não o estaria fazendo para ajudar a pessoa, e sim a sociedade! É pra manter o arranjo dela que o senhor muda as pessoas que podem mudá-la. Convence a pessoa de que é melhor pra ela não transar com qualquer coisa que se mova ou não andar pulando lajotas, ou não conversar com coisas que não existem. E que elas podem conseguir, pagando você! E tudo isso para que as pessoas na rua não tenham medo de um monólogo inofensivo. Você porta uma arma ideológica, seu antístite de corrupção.

- O quão apaixonado está você ao me atacar?

Ain! Será que o Dr. Telésforo conseguira, sem nenhuma dificuldade aparente, derrubar tudo o que estava dito nas entrelinhas [ não tão implícitas, é bem verdade ] através da única forma que soaria profícua após a retórica de Vítor? Ou seja, destituir o dito de valor a partir de suas próprias premissas?! - "Mas é mesmo uma miséra da febre do rato!" - Oxe! Está claro que não! Essa versão nordestinamente precária e tragicamente cômica de Freud não seria capaz. Vítor sabia que não. Não sem o motivo de auferir seu objetivo derradeiro: manter sua alcunha de bandeirante desbravador da mente.

- O quão apaixonado está você! Se defender pra manter a representação social de si intacta, quando deveria escutar o que eu digo, seu velhaco imundo, explorador, brejeiro, gatuno, patife, ratoneiro, biltre, tratante e larápio! Se a intenção da manipulação da loucura é de manter a segurança completa dos cidadãos, pelo motivo de que é possível que eles tirem catota em público, eu sou perfeitamente contra. Vocês não me enganam, seus marotos. Se é assim, se o problema todo é se sentir mal ao lado de um louco no ônibus, deveríamos também proibir os idosos de entrarem em restaurantes. Sim, pois uma maioria bem mais concorde deve sentir-se pior ao ver um idoso comendo na hora do almoço que ao sentar ao lado de um louco no ônibus. É horrível, não é, doutor? ver aquelas dentaduras descomedidas, lutando por equilíbrio com uma força motora escassa demais e uma coordenação ainda mais maltratada. O senhor há de convir. Ah! Poderíamos também, para sermos ainda mais justos e éticos com nosso bem-estar, delimitar o espaço que os negros podem ocupar em nossa cidade, que tal? Não andaremos na mesma calçada, não nos tocaremos, e podemos resolver o problema do ônibus, aqui apresentado para o louco, mas que é facilmente pensado para o negro, com uma simples medida de segurança do nosso conforto: eles sentariam no fundo, e nós, na frente. Onde já se viu? Eu sentar ao lado de um louco, de um negro, de um espinhento? Separem-nos, seus merdinhas!
Tamborilando com os dedos - do mínimo ao polegar, do polegar ao mínimo - Vítor pensava numa forma de calar a última palavra, sempre responsável por todo o silêncio seguinte.

- Eu penso que... geralmente penso, que pra poder acreditar que minhas críticas têm valor, eu... é como se...
- Continuaremos na próxima sessão - disse o analista, levantando-se de sua cadeira simples de madeira rapidamente, mas sem deixar escapar nenhuma amostra de ansiedade para o fim da sessão.
- Fidputa! - mumurou com uma intensidade exagerada na segunda sílaba, não tão alto que pudesse ser entendido, nem tão baixo que não pudesse ser fustigado com a dúvida de que havia sido ouvido com clareza.