Quincampoix e o Divã
- Hm.
- Hm. Ao viver uma sensação, uma emoção, que surge travestida de intuição, é que se busca argumentos para sedimentá-la. Algo que pode até ser confundido com uma inclinação inocente para um certo lado das coisas é uma manifestação que não tem um motivo senão manter a estrutura do tal sujeito.
Haveria o analista pensado naquilo tudo em algum ensejo mínimo de sua vida prévia? Ou, como a corroborar suas suspeitas, era apenas um daqueles egocêntricos e barbudos e muquiranas e mercenários que tratam a Psicanálise com uma materialidade absurda de quem ainda não havia alcançado o estágio piagetiano das operações formais? E o pior era que, por tomar a Psicanálise como verdade absoluta, não poderia entender a proposta da verdade contingencial, por ir de encontro à essa posição, posição que simplesmente o dava licença para ser Deus e conhecer e controlar e administrar e superintender a mente humana. Durante algum tempo o único som que pôde-se ouvir era o zunir abafado do condicionador de ar.
- O quão apaixonado está você ao me atacar?
Ain! Será que o Dr. Telésforo conseguira, sem nenhuma dificuldade aparente, derrubar tudo o que estava dito nas entrelinhas [ não tão implícitas, é bem verdade ] através da única forma que soaria profícua após a retórica de Vítor? Ou seja, destituir o dito de valor a partir de suas próprias premissas?! - "Mas é mesmo uma miséra da febre do rato!" - Oxe! Está claro que não! Essa versão nordestinamente precária e tragicamente cômica de Freud não seria capaz. Vítor sabia que não. Não sem o motivo de auferir seu objetivo derradeiro: manter sua alcunha de bandeirante desbravador da mente.
- O quão apaixonado está você! Se defender pra manter a representação social de si intacta, quando deveria escutar o que eu digo, seu velhaco imundo, explorador, brejeiro, gatuno, patife, ratoneiro, biltre, tratante e larápio! Se a intenção da manipulação da loucura é de manter a segurança completa dos cidadãos, pelo motivo de que é possível que eles tirem catota em público, eu sou perfeitamente contra. Vocês não me enganam, seus marotos. Se é assim, se o problema todo é se sentir mal ao lado de um louco no ônibus, deveríamos também proibir os idosos de entrarem
Tamborilando com os dedos - do mínimo ao polegar, do polegar ao mínimo - Vítor pensava numa forma de calar a última palavra, sempre responsável por todo o silêncio seguinte.
- Eu penso que... geralmente penso, que pra poder acreditar que minhas críticas têm valor, eu... é como se...
- Continuaremos na próxima sessão - disse o analista, levantando-se de sua cadeira simples de madeira rapidamente, mas sem deixar escapar nenhuma amostra de ansiedade para o fim da sessão.
- Fidputa! - mumurou com uma intensidade exagerada na segunda sílaba, não tão alto que pudesse ser entendido, nem tão baixo que não pudesse ser fustigado com a dúvida de que havia sido ouvido com clareza.

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